O primeiro jogo do resto de nossas vidas
A quarta-feira demorou tanto a chegar, que quando finalmente chegou já estava todo mundo exausto de ansiedade –e alguns um pouco bêbados. Cinco horas antes de o jogo entre Corinthians e Racing começar, as redondezas do Pacaembu já estavam movimentadas. O bar enchia aos poucos. A cantoria e os rojões foram se intensificando. Até finalmente o grande momento de entrar no estádio, sentar-se em seu habitual lugar da sorte, com sua camisa da sorte, seu São Jorge da sorte, seu radinho da sorte e esperar que os craques alvinegros entrassem em campo e trouxessem de uma vez por todas a sorte para o nosso lado. Afinal de contas, é ano do nosso Centenário, Deus é fiel, e a gente merece mais.
Eu já tinha cumprido todo o ritual, enchi algumas bexigas e estava pronta para a festa. Coração batendo forte. Apito do árbitro, e desce o bandeirão. Tradição é tradição, e isso também dá sorte. Ouço no meu fone de ouvido o narrador gritar gol. Meio desanimado, mas era gol. Fiquei na ansiedade. Gol de quem? Alguns torcedores perto de mim entraram em pânico, “recolhe o bandeirão, recolhe”. Como se houvesse replay, como se ainda fosse dar tempo de ver o que estava acontecendo, como se ainda pudéssemos reverter o placar. Era o Pacaembu, não tinha replay, não podíamos reverter o placar, e o gol era dos uruguaios.
Eu não sei por que diabos isso aconteceu, mas foi nesse momento exato, enquanto finalmente o bandeirão era recolhido, que tive a certeza de que venceríamos. A minha angústia da semana toda foi-se embora, meu receio de uma tragédia também. E me restou apenas aproveitar o primeiro jogo da grande saga que será essa Libertadores.
O Corinthians, dentro de campo, pensou que nem eu. E correu atrás do prejuízo. Aparentando um pouco de nervosismo, os eleitos de Mano Menezes não deixaram, no entanto, de perseguir o que precisávamos naquele momento: a virada. E quem manja mais de virada do que o Povo Eleito? Não tem para ninguém! A Fiel empolgou da arquibancada, e não foi preciso mais que dez minutos para que o Timão empatasse, com uma das jogadas mais lindas dos últimos tempos –e que envolveu os três destaques do jogo: Ronaldo passou para Tcheco que, lindamente, colocou Elias na cara do go. Foi só delirar e correr para o abraço.
Mas o Timão parece que se acomodou com o empate, e a segunda metade do primeiro tempo foi morna. O Racing marcando duro, pesado, batendo a beça. O Corinthians ainda se afinando, em si mesmo e no estilo de jogo aguerrido, tradicional da Libertadores. Achei especialmente que as laterais precisavam ser mais utilizadas em nossos ataques, pois de lá vêm nossas principais chances de gol. Na direita, Alessandro parecia meio receoso, não lembrando em quase nada a ousadia demonstrada em jogos decisivos da última temporada. Na esquerda, RC se esforçava, brigava por tudo e por todos, disputava a bola, mas talvez o excesso de vontade ainda esteja atrapalhando um pouco. A frieza é tudo nesses momentos –o que não significa que o coração não tenha que bater forte e o sangue correr quente nas veias.
Tcheco, nosso atleta mais experiente em Libertadores, mostrou tudo o que sabia e brilhou muito no Corinthians. Ronaldo, apesar de não ter marcado, participou dos dois lances de gol e ainda deu show. E Elias mais uma vez apareceu no lugar certo e na hora certa para, aos 25 minutos do segundo tempo, sagrar e definir a nossa virada. E para provar que eu estava certa!
Foi sofrido, admito. Achei que teríamos mais facilidade para superar o que haviam me dito que era “o Rio Branco do Uruguai” (com todo respeito ao Rio Branco, claro). Falta um pouco de entrosamento e talvez até um pouco mais de pegada ao nosso time. Mas, apesar das falhas, gostei da participação de todos. Até de Defederico, que ainda precisa crescer, mas está na cara que tem talento. Foi excelente a entrada de Juci. E gostei de ver a Fiel dando uma força a Souza.
Ou seja: temos técnico, temos grupo, temos batalhadores e muita muita vontade. Temos, mais ainda, a Fiel, que, onde o Corinthians for, está em casa. Então, é ir à luta. Semana que vem tem mais.
