As homenagens estão em boas mãos
Eu sempre achei que o mais importante no Centenário de um clube, especialmente de um clube como o Corinthians, fosse relembrar suas histórias. Resgatar sua memória e homenagear quem fez parte dela. Ensinar aos novos, como os velhos traçaram esse caminho, que até hoje nos enche de orgulho. Como escreveram a saga corinthiana, como transformaram o Corinthians no que ele é hoje, como criaram um time, seguido por uma Nação. Eu sempre achei que o mais importante, especialmente se temos a intenção de deixar neste mundo jovens corinthianos tão conscientes quanto apaixonados, fosse a memória.
Para comemorar o Centenário do Corinthians, pouco ou nada me importa show de Ivete, de Claudia Leitte e muito menos de Michael Jackson. O que essas pessoas têm a ver com o Corinthians? Que relação têm com o nosso time, com a nossa história, com a nossa raiz operária? Sempre me interessou, por outro lado, lembrar de Miguel Bataglia, de Flavio La Selva, de Idário, de Basílio, de Neto. De pessoas que ajudaram a construir o passado corinthiano, a história que vamos deixar para nossos filhos e netos, até que o próximo Centenário chegue e, espero, alguém se lembre de lembrar de nós –pois isso significaria que fizemos nosso papel e ajudamos o Corinthians a ser melhor e maior.
Até de Dualibs, Curis e Helus eu gosto de lembrar, pois precisamos manter acessa a memória do que jamais pode voltar a acontecer dentro de nosso clube. Do 2 de dezembro de 2007 eu me lembro vez ou outra, e assim posso sentir cada vez mais orgulho de estarmos prestes a disputar uma Libertadores com Ronaldo e Roberto Carlos.
Enfim, pensando nisso tudo, sugeri aos meus amigos da Comissão do Centenário que criássemos uma “Calçada da Fama”, e que no período de setembro de 2009 a setembro de 2010 nos dedicássemos e relembrar os momentos mais importantes e marcantes da história do Corinthians –e não apenas do futebol–, prestando homenagens às pessoas que permitiram que tantos sonhos passados se transformassem, hoje, em realidade para nós.
E assim homenageamos alguns dos heróis do título de 77 em outubro. Fizemos uma linda reunião com a Fiel em dezembro, para garantir que o maior deslocamento humano em tempos de paz jamais fosse esquecido. E assim também começamos, em novembro passado, a pensar em como seria nossa festa de dez anos da conquista do Mundial. Naquela época começamos a entrar em contato com os primeiros jogadores que seriam homenageados, mas de cara encontramos dificuldades para agendar uma data, pois muitos ainda atuam por clubes de outros Estados (e estariam no início do campeonato ou em pré-temporada) e outros vários já haviam planejado férias com a família.
Optamos por não desistir de comemorar um de nossos títulos mais importantes, e trabalhamos muito para que a celebração ocorrida ontem no Pacaembu se realizasse. Fazer uma ação dentro de um estádio de futebol não é coisa simples. Muitas permissões são necessárias, muitas liberações exigidas, muitos pedidos negados. E, quem diria?, nosso problema maior viria justamente dos jogadores que elegemos para, em nome do time de 2000, receberem essa homenagem. Estava tudo pronto, confirmado, e alguns deles simplesmente não apareceram. Sem ligar, sem dar satisfações a quem os estava esperando –e não me refiro apenas a nós, que organizamos o evento, mas principalmente aos milhares de torcedores que entraram mais cedo no estádio para homenageá-los.
Na hora fiquei chateada, com raiva. Com tristeza por tanto trabalho ter sido quase em vão. Hoje, pensando melhor, acho que a justiça foi feita. Quem fez questão de estar lá, de marcar seus pés no nosso concreto e na nossa história, de honrar o Corinthians e a Fiel Torcida, esses foram homenageados. Quem não fez, nos salvou de um grande erro: deixar para a história falsos ídolos.
A plaquinha que os homenageados por nossa “Calçada da Fama” ganham traz a inscrição: “Esta é uma homenagem do Corinthians, no ano de seu centenário, aos atletas que marcaram sua história e honraram sua camisa”. Hoje eu sei que elas estão em boas mãos. Apenas em boas mãos.

